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Coluna · Voto a Voto

Terceira via, abstenção e brancos e nulos moveram o 2º turno em Piracicaba

Lula ficou com quase dois terços do crescimento entre os turnos, enquanto Flávio preservou vantagem ampla; dados ajudam a identificar onde estava o eleitorado em disputa

O resultado final do segundo turno presidencial em Piracicaba é conhecido: Flávio Bolsonaro venceu novamente na cidade, com 155.469 votos, ou 65,37% dos válidos. Lula recebeu 82.345 votos, equivalentes a 34,63%.

Mas a comparação com o primeiro turno revela uma segunda história, talvez ainda mais interessante do ponto de vista eleitoral.

Entre uma votação e outra, Lula ganhou 19.727 votos. Flávio acrescentou outros 11.694. Juntos, portanto, os dois finalistas receberam 31.421 votos a mais no segundo turno.

E esse número coincide exatamente com a massa eleitoral que ficou disponível com a mudança de cenário entre as duas votações.

No primeiro turno, 20.562 eleitores de Piracicaba escolheram algum dos outros dez candidatos à Presidência. Augusto Cury recebeu 7.284 votos, Renan Santos teve 6.887 e Ronaldo Caiado, 4.802. Os outros sete candidatos somaram 1.589.

No segundo turno, essa terceira via deixou de existir. Ao mesmo tempo, 7.838 eleitores a mais compareceram às urnas e a quantidade de votos brancos e nulos caiu em 3.021.

20.562 votos da terceira via + 7.838 votantes adicionais + 3.021 brancos e nulos a menos = 31.421 votos. É exatamente o mesmo crescimento obtido por Lula e Flávio somados.

O eleitor que estava fora do confronto direto

A coincidência permite uma leitura importante sobre o segundo turno em Piracicaba. Os números são compatíveis com um cenário em que as bases de Lula e Flávio Bolsonaro foram amplamente preservadas, enquanto a principal disputa ocorreu sobre o eleitorado que, no primeiro turno, não estava diretamente com nenhum dos dois finalistas.

Isso não significa que os votos simplesmente tenham migrado de forma linear. Não é possível afirmar, por exemplo, que determinado número de eleitores de Augusto Cury foi para Lula ou que os votos de Ronaldo Caiado terminaram com Flávio. Também não é possível saber se quem se absteve no primeiro turno votou no segundo ou se parte do eleitorado dos próprios finalistas deixou de comparecer.

O voto é secreto e os resultados oficiais apresentam saldos, não trajetórias individuais. Mas o tamanho das massas permite identificar onde estava o espaço disponível para crescimento. E quem conseguiu aproveitar mais esse espaço foi Lula.

Lula ficou com 63% do crescimento

Dos 31.421 votos adicionais recebidos pelos dois candidatos entre os turnos, 19.727 ficaram com Lula, aproximadamente 63% do crescimento conjunto. Flávio recebeu os outros 11.694, cerca de 37%.

Com isso, Lula saiu de 62.618 votos no primeiro turno para 82.345 no segundo, crescimento de 31,5% em número absoluto. Seu percentual sobre os votos válidos passou de 27,59% para 34,63%, avanço de pouco mais de 7 pontos percentuais.

Flávio passou de 143.775 para 155.469 votos, alta de 8,1%. Em participação nos válidos, foi de 63,35% para 65,37%.

Ou seja: Lula cresceu muito mais em votos, mas Flávio também aumentou sua votação e preservou uma vantagem confortável na cidade. A diferença entre os dois, que era de 81.157 votos no primeiro turno, terminou em 73.124 no segundo.

Mais gente foi votar

Outro elemento fundamental foi o comparecimento. Piracicaba tinha 311.212 eleitores aptos no primeiro turno e 311.167 no segundo, uma diferença praticamente irrelevante para a análise.

Mas o número de pessoas que efetivamente compareceu às urnas subiu de 239.268 para 247.106. Foram 7.838 votantes adicionais.

A abstenção caiu de 23,1% para 20,6%, o menor percentual da série histórica apresentada no levantamento e o primeiro segundo turno analisado em que mais pessoas foram votar do que no primeiro.

Além disso, brancos passaram de 5.227 para 3.425 e nulos recuaram de 7.086 para 5.867. Somados, brancos e nulos diminuíram em 3.021 votos.

O avanço não ocorreu da mesma forma em toda a cidade

Quando os resultados são distribuídos pelo território, aparecem dois movimentos bastante distintos. Lula cresceu principalmente nas regiões Norte, Oeste e Sul.

Na região Norte, ficou com 69% de todo o crescimento entre os candidatos. No Oeste, 67%. No Sul, 66%.

Já no Centro, a disputa pela nova massa de votos foi muito mais equilibrada: Lula ganhou 3.985 votos e Flávio, 3.438. Ali, Flávio conseguiu aumentar seu percentual em 3,6 pontos, sua maior evolução entre as regiões analisadas.

Esse padrão também aparece quando se observam os bairros. Lula conseguiu virar três deles: Bosques do Lenheiro, Loteamento Kobayat Líbano e Loteamento Vem Viver I. No primeiro turno, não havia vencido em nenhum bairro da cidade.

Em Bosques do Lenheiro, por exemplo, Lula saiu de 40,8% para 52,5%. Ganhou 334 votos entre os turnos, enquanto Flávio acrescentou apenas 23. No Kobayat Líbano, Lula passou de 39,9% para 51,3%. No Vem Viver I, de 39% para 50,5%.

Onde estava a terceira via

Outro dado ajuda a sofisticar a leitura. Nas escolas em que a terceira via teve maior presença no primeiro turno, Flávio apresentou crescimento proporcionalmente maior.

O levantamento encontrou correlação de 0,64 entre o tamanho da terceira via e o avanço de Flávio. Esses locais tendem a apresentar eleitorado mais escolarizado e adulto.

Já o crescimento de Lula teve relação mais forte com locais onde ele já apresentava votação elevada no primeiro turno e onde a incidência de brancos e nulos também era maior. A correlação entre a votação inicial de Lula e seu avanço foi de 0,71; entre brancos e nulos e seu crescimento, de 0,62.

É uma pista, não uma prova individual de transferência de votos.

Juventude e escolaridade também desenham territórios distintos

O cruzamento dos resultados das escolas com o perfil do eleitorado cadastrado pelo TSE revelou outro padrão.

Nas escolas com maior proporção de eleitores entre 16 e 24 anos, Lula avançou 8,4 pontos. Nas escolas com menos jovens, o crescimento foi de 5,9 pontos. A correlação entre presença de jovens e avanço de Lula chegou a 0,65.

Flávio mostrou comportamento diferente. No quinto de escolas com maior proporção de eleitores com ensino superior completo, ele avançou 3,9 pontos. No grupo com menor presença de diplomados, seu percentual praticamente não cresceu: recuou 0,3 ponto.

A correlação entre presença de diplomados e crescimento de Flávio foi de 0,77, a mais forte encontrada nesse cruzamento. Novamente, é necessário cuidado: esses dados descrevem as características das escolas e dos territórios, não o voto individual de jovens ou diplomados.

Duas Piracicabas dentro da mesma eleição

O segundo turno deixa, portanto, uma imagem mais complexa do eleitorado piracicabano do que simplesmente o placar de 65% a 35%.

Flávio Bolsonaro manteve uma base muito sólida e venceu em 73 dos 76 bairros analisados. Piracicaba continuou, inclusive, muito mais favorável a ele do que o conjunto do Estado de São Paulo. Flávio recebeu aproximadamente 53,8% dos votos estaduais e 65,4% na cidade. Entre as 30 maiores cidades paulistas, apenas Limeira apresentou percentual maior para o candidato do PL.

Ao mesmo tempo, Lula foi quem mais cresceu entre os turnos. Ele capturou quase dois terços do crescimento conjunto, virou três bairros, avançou principalmente nas periferias Norte e Oeste e teve desempenho proporcionalmente melhor nas escolas localizadas em áreas com eleitorado mais jovem e menos escolarizado.

Flávio, por sua vez, encontrou crescimento maior em locais mais escolarizados e conseguiu reforçar alguns de seus redutos já consolidados.

O que os números permitem concluir

A principal conclusão talvez seja justamente o que os dados não mostram. Não sabemos como votou individualmente o eleitor de Augusto Cury, Renan Santos ou Ronaldo Caiado. Não sabemos se quem havia votado branco decidiu por Lula ou Flávio. Nem é possível identificar se uma pessoa que se absteve no primeiro turno voltou às urnas no segundo.

O que sabemos é que 31.421 votos passaram a integrar a votação dos dois finalistas e que essa mesma quantidade pode ser explicada pela soma da terceira via, pelo aumento do comparecimento e pela redução dos votos brancos e nulos.

E sabemos também como esse crescimento se distribuiu geograficamente. É aí que os números deixam de ser apenas resultado eleitoral e passam a contar uma história sobre Piracicaba.

Flávio manteve a cidade claramente à direita no confronto presidencial. Lula, entretanto, encontrou espaço para crescer onde sua votação já era mais competitiva e terminou o segundo turno com seu melhor percentual em Piracicaba desde 2018 nas eleições analisadas pelo levantamento.

As bases permaneceram fortes. Mas quem estava fora delas moveu o tabuleiro.

Fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), boletins de urna dos dois turnos, perfil do eleitorado por seção, canalvotos.app e Mapa do Poder. Levantamento do Grupo Canal com os 907 boletins de urna de Piracicaba.

As colunas expressam a análise e a opinião de quem as assina.

Raphael Santana
Sobre o colunista

Raphael Santana

Diretor executivo do Grupo Canal. Assina a coluna Voto a Voto, que lê os números das eleições em Piracicaba a partir dos dados oficiais.

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