Tarcísio amplia distância do bolsonarismo e começa a construir espaço próprio de olho em 2030
Governador mantém apoio a Flávio Bolsonaro, mas adota posições próprias em temas sensíveis à direita e amplia discurso sobre assuntos nacionais.
Publicado em 24 de agosto de 2026, 17:39 — Em São Paulo

Tarcísio de Freitas (Republicanos) mantém o apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro em São Paulo, mas seus movimentos recentes indicam uma mudança na relação com o campo bolsonarista. Ao mesmo tempo em que participa da articulação política em torno do senador, o governador paulista vem assumindo posições próprias em temas considerados sensíveis para o bolsonarismo e ampliando sua presença em debates de alcance nacional.
O movimento ocorre enquanto Tarcísio aparece como uma das principais figuras da direita com potencial para disputar a Presidência da República em 2030.
Anunciado em fevereiro como futuro coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, o governador passou a mencionar o nome do senador com menos frequência do que esperavam integrantes do grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Desde o início oficial da campanha, no dia 16 desse mês, Tarcísio tem evitado falar espontaneamente sobre a candidatura de Flávio. Quando questionado, costuma destacar que uma eventual vitória do senador poderia beneficiar São Paulo pela possibilidade de maior sintonia entre o governo estadual e o Palácio do Planalto.
A postura já provocou incômodo entre setores bolsonaristas.
Um deputado estadual do PL em São Paulo, ouvido sob condição de anonimato, avaliou que o governador não estaria demonstrando o empenho esperado para ajudar Flávio. Na avaliação do parlamentar, o apoio de Tarcísio e do Republicanos será importante para o desempenho do senador no estado.
Ausência em agenda de Flávio chamou atenção
Na quinta-feira, dia 20, Tarcísio não participou da primeira agenda de Flávio Bolsonaro na capital paulista.
Enquanto o senador visitava um mercado popular e uma escola de futebol na zona leste da cidade, acompanhado do prefeito Ricardo Nunes (MDB), o governador participava de uma sabatina com jornalistas da Rádio CBN e dos jornais Valor e O Globo, na zona oeste.
A presença de Nunes ao lado de Flávio também ganhou destaque. O prefeito, que mantém proximidade política com Tarcísio, vem fazendo a interlocução do senador com o eleitorado paulistano.
Um aliado de Nunes afirmou, porém, que a participação do prefeito na campanha ocorre por decisão própria e não a pedido do governador.
Depois da sabatina, Tarcísio almoçou com Nunes e Flávio.
Os dois voltaram a aparecer juntos no fim de semana, durante compromissos no interior paulista. Na Festa do Peão de Barretos, no sábado dia 22, o governador fez até aqui uma de suas manifestações públicas mais contundentes de apoio ao senador.
No palco do evento, Tarcísio chamou Flávio de “herdeiro do projeto Bolsonaro” e destacou sua relação de gratidão com o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O gesto mostrou que, apesar dos sinais de autonomia, o governador não pretende romper com o grupo político que o projetou nacionalmente.
Posições de Tarcísio começam a divergir do bolsonarismo
Ao mesmo tempo em que mantém o apoio a Flávio, Tarcísio vem adotando posições que se distanciam de algumas das principais bandeiras defendidas recentemente por integrantes da família Bolsonaro.
Um dos exemplos apareceu durante um encontro com mulheres em Osasco, que marcou o início de sua campanha. Na ocasião, o governador afirmou ser contrário ao encarceramento em massa.
A declaração contrasta com a defesa feita por Flávio Bolsonaro de medidas inspiradas no modelo de segurança adotado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, marcado pelo encarceramento em larga escala de suspeitos.
Questionado sobre o modelo salvadorenho, Tarcísio procurou direcionar a discussão para a atuação do Estado brasileiro no combate à criminalidade.
Segundo o governador, a questão central seria a necessidade de o poder público enfrentar o crime de maneira efetiva, considerando as características da realidade brasileira.
Outro ponto de divergência apareceu na discussão sobre as urnas eletrônicas.
Na quinta-feira, Tarcísio declarou confiar plenamente na segurança do sistema eleitoral brasileiro e afirmou que o assunto “não é mais pauta” e não deveria ser tratado dessa forma.
A declaração se distancia das críticas feitas anteriormente por Flávio Bolsonaro e pelo próprio Jair Bolsonaro ao sistema de votação.
Em outra entrevista concedida na mesma semana, Tarcísio também evitou assumir uma identificação integral com o bolsonarismo.
O governador afirmou que se identifica com valores do movimento, mas ressaltou que rejeita aquilo que considera inadequado. Como exemplo, citou os esforços realizados em São Paulo para ampliar a cobertura vacinal.
A declaração ocorreu depois de Eduardo Bolsonaro se manifestar, no início de agosto, contra a obrigatoriedade de vacinas.
Relação política mudou desde 2022
A diferença de comportamento fica ainda mais evidente quando a atual campanha é comparada com a eleição de 2022.
Naquele período, Tarcísio ainda era um nome pouco conhecido do eleitorado paulista e dependia fortemente do apoio e da imagem de Jair Bolsonaro para consolidar sua candidatura ao governo de São Paulo.
No último debate antes do segundo turno daquele ano, por exemplo, Tarcísio começou sua participação defendendo Bolsonaro e repetindo propostas associadas à campanha do então presidente, que acabaria derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva.
Agora, de acordo com o cientista político Marco Teixeira, professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV), a relação de dependência política teria se invertido.
Na avaliação do especialista, se em 2022 Tarcísio dependia do bolsonarismo para conquistar espaço eleitoral, atualmente seria Flávio quem precisaria de uma aproximação maior com o governador para ampliar seu desempenho nas pesquisas.
Esse cenário também reduziria o espaço para que o senador faça críticas públicas às decisões de Tarcísio, mesmo que exista desconforto dentro do grupo bolsonarista.
Outro fator que dificulta uma adesão integral de Tarcísio à candidatura de Flávio é a composição política construída pelo governador em São Paulo.
A aliança inclui partidos que não apoiam o senador na disputa presidencial, como o PSD. O próprio Republicanos, legenda de Tarcísio, mantém neutralidade na corrida pelo Palácio do Planalto.
Governador amplia discurso para além de São Paulo
Enquanto mantém formalmente o foco em São Paulo, Tarcísio vem incorporando aos discursos temas de alcance nacional.
Em agendas recentes, o governador falou sobre as apostas esportivas e defendeu medidas para combater as chamadas bets. Também defendeu uma reforma política com fim da reeleição e adoção do voto distrital.
Tarcísio ainda criticou a política econômica do governo Lula e afirmou que o Brasil poderá enfrentar uma recessão em breve.
O vídeo de lançamento de sua candidatura reforçou essa estratégia ao apresentar o governador como “um exemplo para o Brasil”, destacando resultados de sua gestão no estado.
A equipe de Tarcísio, entretanto, nega que exista uma tentativa deliberada de nacionalizar a campanha.
Segundo um interlocutor do governador, Tarcísio continua concentrado nos assuntos de São Paulo e apenas aborda temas nacionais quando é questionado, principalmente durante encontros com representantes do mercado financeiro.
A avaliação de especialistas, porém, aponta para uma leitura mais ampla desse movimento.
Projeto de 2030 entra no radar
Para o cientista político Marco Teixeira, a postura adotada por Tarcísio durante a atual campanha pode estar relacionada a um projeto político de longo prazo.
O professor relaciona, inclusive, a defesa do governador pelo fim da reeleição à possibilidade de uma candidatura presidencial em 2030.
Na avaliação de Teixeira, o chamado projeto Tarcísio 2030 dependeria de dois cenários: Flávio Bolsonaro não vencer a eleição de 2026 ou, caso seja eleito, cumprir a promessa de não disputar a reeleição.
A lógica colocaria Tarcísio em uma posição politicamente delicada.
De um lado, o governador precisa preservar a aproximação com o eleitorado bolsonarista e manter o apoio a Flávio em São Paulo. De outro, começa a construir uma imagem política própria, menos dependente da identificação direta com Jair Bolsonaro.
Por isso, os movimentos atuais não representam necessariamente um rompimento com o bolsonarismo.
Tarcísio continua reconhecendo a importância de Jair Bolsonaro em sua trajetória, mantém o apoio a Flávio e segue dialogando com o eleitorado de direita.
O que começa a mudar é a maneira como o governador se posiciona politicamente.
A estratégia combina apoio ao grupo Bolsonaro com maior autonomia em temas considerados sensíveis e uma presença cada vez mais forte em debates nacionais.
Se esse movimento será apenas uma estratégia para a disputa de 2026 ou o primeiro passo para a construção de uma candidatura presidencial em 2030, ainda é uma questão em aberto.
Mas uma coisa já chama atenção, o Tarcísio de 2026 apresenta uma autonomia política que não estava presente da mesma forma na campanha de 2022.



