Tudo é Engenharia — Você confia sem perceber
ESTADO SP

Tensão no STF aumenta após Moraes pedir investigação de Mendonça

Uma crise interna de grandes proporções ganhou novo capítulo no Supremo Tribunal Federal (STF).

Amanda Mendes
Amanda Mendes

Publicado em 4 de setembro de 2026, 10:56 — Em São Paulo

9 min de leitura
Tensão no STF aumenta após Moraes pedir investigação de Mendonça
Tensão no STF aumenta após Moraes pedir investigação de Mendonça

O ministro Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente da Corte, Edson Fachin, um pedido para que seja investigada a atuação do colega André Mendonça na condução de processos relacionados às operações Sem Desconto e Compliance Zero.

Na avaliação de Moraes, os elementos reunidos no caso indicariam a necessidade de apurar possíveis práticas de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade, além de eventual favorecimento a determinados grupos políticos. O pedido foi acompanhado de relatórios de inteligência da Polícia Federal e encaminhado no âmbito do chamado inquérito das fake news.

A iniciativa ocorre em um momento particularmente delicado para o Supremo. Apenas dois dias antes, Mendonça havia retirado o sigilo de uma investigação que reúne mensagens e informações envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master, e autoridades públicas, entre elas o próprio Moraes. O ministro determinou que o caso fosse levado ao plenário da Corte.

É nesse ponto que o episódio deixa de ser apenas uma divergência jurídica entre dois integrantes do STF e passa a revelar uma disputa institucional de maior alcance.

De lados diferentes da política</u></b>

As trajetórias de Moraes e Mendonça também ajudam a compreender o peso político do confronto.

Alexandre de Moraes chegou ao Supremo em 2017, indicado pelo então presidente Michel Temer. Antes disso, havia ocupado o Ministério da Justiça e a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, além de ter trajetória ligada ao PSDB.</b>

André Mendonça, por sua vez, chegou ao STF quatro anos depois, indicado por Jair Bolsonaro para a vaga deixada pela aposentadoria de Marco Aurélio Mello. Antes de integrar a Corte, foi advogado-geral da União e ministro da Justiça durante o governo Bolsonaro. Sua indicação também foi apresentada pelo então presidente como a escolha de um ministro de perfil religioso e conservador.</u>

A composição das trajetórias é politicamente significativa: de um lado, Moraes tornou-se uma das principais figuras do STF durante o enfrentamento institucional ao bolsonarismo e às ações contra a democracia; de outro, Mendonça chegou à Corte pelas mãos do próprio Bolsonaro, embora sua atuação como ministro do Supremo não possa ser automaticamente reduzida à posição política do governo que o indicou.

Essa diferença de origem ajuda a explicar por que decisões tomadas por Mendonça podem ser interpretadas de maneira distinta por grupos políticos que acompanham o Supremo.

O que Moraes questiona

Segundo Moraes, a atuação de Mendonça nas investigações teria ultrapassado os limites esperados da função judicial. Entre os pontos levantados estão a suposta interferência na condução de investigações policiais, questionamentos sobre a cadeia de custódia de provas, a condução de tratativas relacionadas a uma eventual colaboração premiada e o direcionamento de determinados alvos.

Moraes também sustenta que teria havido quebra de imparcialidade e favorecimento político. Entre os alvos que, segundo a manifestação, teriam sido direcionados nas investigações estão o próprio ministro e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. As acusações foram fundamentadas em relatórios produzidos pela Polícia Federal.

É importante ressaltar que o pedido de investigação não significa que as acusações estejam comprovadas. O presidente do STF, Edson Fachin, ainda deverá avaliar os elementos apresentados. Paralelamente, Fachin abriu procedimento para esclarecer questionamentos relacionados à investigação conduzida por Mendonça e solicitou manifestações dos envolvidos.

Uma disputa que expõe o Supremo

O episódio produz uma situação incomum: um ministro do Supremo pede providências contra outro ministro da própria Corte, enquanto os dois estão envolvidos em investigações que atingem autoridades e interesses políticos de grande relevância.

A sequência dos acontecimentos também chama atenção. Mendonça tornou públicos documentos que envolvem Moraes e outras autoridades. Na sequência, Moraes apresentou a Fachin um pedido de investigação sobre a atuação de Mendonça.</i>

O resultado é uma escalada de tensão dentro de uma instituição que, justamente por sua posição constitucional, precisa preservar a confiança pública em sua imparcialidade e independência.

Mais do que uma disputa pessoal entre dois ministros, o caso coloca em discussão os limites da atuação judicial, o papel dos ministros do STF na condução de investigações e até que ponto decisões judiciais podem ser influenciadas ou percebidas como influenciada pelo ambiente político.

A sociedade brasileira acompanha há anos um processo de crescente protagonismo do Supremo Tribunal Federal na vida política nacional. Ao mesmo tempo em que a Corte assumiu papel central em temas que envolvem democracia, corrupção, eleições e autoridades públicas, aumentaram também as críticas sobre a extensão de seus poderes.

Agora, a crise coloca uma pergunta ainda mais delicada: quem fiscaliza o fiscalizador quando o conflito envolve os próprios integrantes da mais alta Corte do país?

O esclarecimento das acusações contra Mendonça deverá ocorrer dentro das regras institucionais e com transparência. Da mesma forma, eventuais questionamentos sobre a atuação de Moraes precisam ser analisados sem privilégios ou condenações antecipadas.

No fim, a questão ultrapassa a disputa entre dois ministros. O que está em jogo é a confiança da sociedade na Justiça e a capacidade das instituições brasileiras de demonstrar que nenhum agente público independentemente de sua trajetória política, de quem o indicou ou do tamanho de seu poder está acima dos mecanismos de controle.</u></b>

E você, como avalia esse confronto dentro do STF? Trata-se de um necessário processo de fiscalização institucional ou a disputa revela uma perigosa politização da Suprema Corte?

Uma crise interna de grandes proporções ganhou novo capítulo no Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quinta-feira (3). O ministro Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente da Corte, Edson Fachin, um pedido para que seja investigada a atuação do colega André Mendonça na condução de processos relacionados às operações Sem Desconto e Compliance Zero.

Na avaliação de Moraes, os elementos reunidos no caso indicariam a necessidade de apurar possíveis práticas de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade, além de eventual favorecimento a determinados grupos políticos. O pedido foi acompanhado de relatórios de inteligência da Polícia Federal e encaminhado no âmbito do chamado inquérito das fake news.

A iniciativa ocorre em um momento particularmente delicado para o Supremo. Apenas dois dias antes, Mendonça havia retirado o sigilo de uma investigação que reúne mensagens e informações envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master, e autoridades públicas, entre elas o próprio Moraes. O ministro determinou que o caso fosse levado ao plenário da Corte.

É nesse ponto que o episódio deixa de ser apenas uma divergência jurídica entre dois integrantes do STF e passa a revelar uma disputa institucional de maior alcance.

De lados diferentes da política

As trajetórias de Moraes e Mendonça também ajudam a compreender o peso político do confronto.

Alexandre de Moraes chegou ao Supremo em 2017, indicado pelo então presidente Michel Temer. Antes disso, havia ocupado o Ministério da Justiça e a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, além de ter trajetória ligada ao PSDB.

André Mendonça, por sua vez, chegou ao STF quatro anos depois, indicado por Jair Bolsonaro para a vaga deixada pela aposentadoria de Marco Aurélio Mello. Antes de integrar a Corte, foi advogado-geral da União e ministro da Justiça durante o governo Bolsonaro. Sua indicação também foi apresentada pelo então presidente como a escolha de um ministro de perfil religioso e conservador.

A composição das trajetórias é politicamente significativa: de um lado, Moraes tornou-se uma das principais figuras do STF durante o enfrentamento institucional ao bolsonarismo e às ações contra a democracia; de outro, Mendonça chegou à Corte pelas mãos do próprio Bolsonaro, embora sua atuação como ministro do Supremo não possa ser automaticamente reduzida à posição política do governo que o indicou.

Essa diferença de origem ajuda a explicar por que decisões tomadas por Mendonça podem ser interpretadas de maneira distinta por grupos políticos que acompanham o Supremo.

O que Moraes questiona

Segundo Moraes, a atuação de Mendonça nas investigações teria ultrapassado os limites esperados da função judicial. Entre os pontos levantados estão a suposta interferência na condução de investigações policiais, questionamentos sobre a cadeia de custódia de provas, a condução de tratativas relacionadas a uma eventual colaboração premiada e o direcionamento de determinados alvos.

Moraes também sustenta que teria havido quebra de imparcialidade e favorecimento político. Entre os alvos que, segundo a manifestação, teriam sido direcionados nas investigações estão o próprio ministro e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. As acusações foram fundamentadas em relatórios produzidos pela Polícia Federal.

É importante ressaltar que o pedido de investigação não significa que as acusações estejam comprovadas. O presidente do STF, Edson Fachin, ainda deverá avaliar os elementos apresentados. Paralelamente, Fachin abriu procedimento para esclarecer questionamentos relacionados à investigação conduzida por Mendonça e solicitou manifestações dos envolvidos.

Uma disputa que expõe o Supremo

O episódio produz uma situação incomum: um ministro do Supremo pede providências contra outro ministro da própria Corte, enquanto os dois estão envolvidos em investigações que atingem autoridades e interesses políticos de grande relevância.

A sequência dos acontecimentos também chama atenção. Mendonça tornou públicos documentos que envolvem Moraes e outras autoridades. Na sequência, Moraes apresentou a Fachin um pedido de investigação sobre a atuação de Mendonça.

O resultado é uma escalada de tensão dentro de uma instituição que, justamente por sua posição constitucional, precisa preservar a confiança pública em sua imparcialidade e independência.

Mais do que uma disputa pessoal entre dois ministros, o caso coloca em discussão os limites da atuação judicial, o papel dos ministros do STF na condução de investigações e até que ponto decisões judiciais podem ser influenciadas ou percebidas como influenciadas pelo ambiente político.

A sociedade brasileira acompanha há anos um processo de crescente protagonismo do Supremo Tribunal Federal na vida política nacional. Ao mesmo tempo em que a Corte assumiu papel central em temas que envolvem democracia, corrupção, eleições e autoridades públicas, aumentaram também as críticas sobre a extensão de seus poderes.</u></i>

Agora, a crise coloca uma pergunta ainda mais delicada: quem fiscaliza o fiscalizador quando o conflito envolve os próprios integrantes da mais alta Corte do país?

O esclarecimento das acusações contra Mendonça deverá ocorrer dentro das regras institucionais e com transparência. Da mesma forma, eventuais questionamentos sobre a atuação de Moraes precisam ser analisados sem privilégios ou condenações antecipadas.

No fim, a questão ultrapassa a disputa entre dois ministros. O que está em jogo é a confiança da sociedade na Justiça e a capacidade das instituições brasileiras de demonstrar que nenhum agente público independentemente de sua trajetória política, de quem o indicou ou do tamanho de seu poder está acima dos mecanismos de controle.

E você, como avalia esse confronto dentro do STF? Trata-se de um necessário processo de fiscalização institucional ou a disputa revela uma perigosa politização da Suprema Corte?</b>

Gostou? Compartilhe:

Leia também